A Brasilidade E a Inventiva Do Trio Calafrio

Se dependesse das intenções dos grandes conglomerados que hoje ditam a regra no mercado mundial do entretenimento, a música popular brasileira seria, toda ela, igualzinha à de todo o mundo: o mesmo play-back, o mesmo romantismo infantil e sexualizado, as mesmas letras sem conteúdo. Música que faça parar, refletir, tirar conclusões? Neca de pitibinéris! Nem pensar!

Pois são essas intenções muito bem esquematizadas, num plano estratégico que visa à vampirização da melhor música do planeta para transformá-la num caldo só, insípido, inodoro e incolor; são essas estratégias que absorvem o discurso naturalmente agressivo do gueto mas calçando-lhe um reebok, um nike ou um mizuno desses aí, e jogam o samba pra escanteio - porque o samba gosta mesmo é de calça da “boca do linho”, no Campo de São Cristóvão; de pisante do Souza ou do Motinha; e “cobertura” da Chapelaria Porto, na Senador Pompeu.

Pois as corporations não são trouxas. E, do gueto, só absorvem o discurso que pode dar uma mãozinha nos seus negócios. Inclusive o da violência urbana e da guerra como um todo. O discurso que corrói por baixo e por dentro, mesmo, esse que os romanos já temiam, que ao mesmo tempo diverte, educa e destrói (o que não presta)… Esse não! Pelo amor de Dólar!
Num país em que as concessões de radiodifusão são feudos intocáveis, uma parabólica trazida pelo temporal, e que o malandro fincou no barraco na maior cara de pau, vale mais do que 500 projetos de lei sobre a democratização dos meios de comunicação. Da mesma forma que o “Samba do Jeton” instrui as discussões sobre a reforma previdenciária. E na mesma medida que a história da Mary Lou - que, com os cacarecos que ganhou das patroas bacanas, montou um antiquário - vale mais como dica de ascensão econômica do que qualquer manual do SEBRAE.

E, na hora que a barriga ronca? Fazer o quê? Meter bronca, claro! Mas sem apelar pra ignorância. E dando aula de criatividade. Pois criatividade (a ponto até de se comunicarem numa linguagem toda própria e pessoal) é o que não falta ao Trio Calafrio - cujo nome, aliás, nasceu da inventiva de outro brilhante filho da periferia: Zeca Pagodinho.

O motorista de táxi Luiz Grande, bamba da Imperatriz Leopoldinense, é um dos grandes estilistas do samba. Seu jeito peculiar de compor, com ênfase no sincopado, está presente em antológicas gravações do saudoso João Nogueira, como naquele suingado “por onde andará Maria Rita?” ainda nos anos 70. Já Barbeirinho (cujo apelido é mais que uma carteira do Ministério do Trabalho), letrista de rara inventiva, cavaquinista esperto e cria dos Unidos Jacarezinho, chegou depois mas chegou bonito, principalmente na voz de Zeca Pagodinho. E na lateral esquerda, Marcos Diniz, irmão de Mauro e filho de Monarco, de quem herdou a bela voz; e, como o pai, fazendo a ponte melódica entre o Jacarezinho e Osvaldo Cruz, de maneira tão poética quanto irônica e tão sarcástica quanto lírica.

Enfim, o que é preciso dizer é que botar o dedo na ferida, sacaneando, debochando do opressor e se possível passando a mão na bunda dele, incomoda muito mais do que latir na cara de quem tenta nos excluir e anular. E esse é o grande lance do Trio Calafrio. Que sabe fazer samba romântico também; e dançante, como, por exemplo, os gostosíssimos Pouco Importa a Tranca (um espontâneo samba-jazz!) e Mary Lu, vestidos para o baile pelo suingue e a sensibilidade dos grandes Leandro Braga e Itamar Assiere.

O íntegro Paulinho Albuquerque, amigo do samba e do sambista, que vai de New Orleans a Seropédica sem se perder, teve a clareza de se cercar de alguns dos melhores músicos da atualidade brasileira. Sem Berklee, sem Los Angeles, sem babaquice, desfilam por este disco timbres, sons e nuances rítmicas na medida. Como requer a brasilidade e a inventiva do Trio Calafrio.

Este é pois um disco ímpar. No qual as palavras-chave são: criatividade e identidade.

E aí eu me lembro que, noutro dia, numa entrevista sobre um grupo de rap caribenho que estão querendo transformar em bola da vez, um marqueteiro de gravadora disse: “Está difícil! Eles são muito latinos para o mercado do rap e muito rappers para o mercado da música latina!”.

Não é engraçado?

Por Ney Lopes