Teresa Cristina, Sambista Que Mira No Passado E Acerta O Futuro

Paulinho da Viola fez 60 anos no ano passado e recebeu algumas homenagens, como a publicação de dois livros sobre a sua obra e vida, um documentário que deve estrear este semestre e - a mais significativa delas - dois discos só com obras suas, gravados por Teresa Cristina e o Grupo Semente. Em sua estréia, a carioca de Realengo mostra muita coragem e acerta em cheio ao mergulhar no quase infinito repertório do sambista de alta classe que é Paulinho. Sambas de todos os momentos, o que em Paulinho da Viola significa muitos. Ele fez sua primeira gravação com o conjunto A Voz do Morro (Zé Kéti, Nescarzinho, Oscar Bigode, Zé Cruz, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho), lançando dois volumes do Roda de Samba em 1965, mesmo ano em que acompanhou Araci Cortes e Clementina de Jesus no espetáculo Rosa de Ouro. No ano seguinte lançava sua parceria com Elton Medeiros, Na Madrugada, e estrearia em disco solo em 1968. Na década seguinte, lançou dez álbuns e entrou para a história como um grande sambista que sempre reverenciou o samba e os mestres do passado como Cartola, Nelson Cavaquinho, Monarco e Casquinha - dos quais foi contemporâneo - e Paulo da Portela, fundador da sua escola de coração. Os anos 70 se deliciaram com os clássicos álbuns Foi um Rio que Passou em Minha Vida (1970), Paulinho da Viola (1971, aquele com uma mão segurando uma folha verde na capa), A Dança da Solidão (1972), Nervos de Aço (1973), Memórias Cantando e Memórias Chorando (1976), Paulinho da Viola (1978, com desenho do corpo de um violão). E tem ainda Eu Canto o Samba (1989) e o seu mais recente trabalho, Bebadosamba (1996).

Tudo isso para mostrar que a opção de se debruçar sobre a obra do sambista nunca é uma tarefa fácil. A decisão de estrear com um CD duplo, intitulado A Música de Paulinho da Viola (Deckdisc), portanto, foi uma das primeiras e acertadas decisões de Teresa e o grupo que a acompanha. No total, 28 faixas e 32 músicas com participações sublimes de Elton Medeiros - maior parceiro do mestre -, Conjunto Época de Ouro - onde César Faria, pai de Paulinho, toca violão - e Velha Guarda da Portela, além do próprio Paulinho. Outro acerto está no samba mais que fino executado por Ricardo Cotrim (surdo), Pedro Miranda (pandeiro), João Calado (cavaquinho), Bernardo Dantas (violão), o Grupo Semente. Semente, o bar ali na esquina da Rua Joaquim Silva com os Arcos da Lapa, local de noitadas de cerveja, choro e samba, onde velhos mestres dividem o pequeno espaço com jovens promissores na arte de sambar e chorar. Semente, onde Teresa começou e já cantou muito samba. E seu repertório, mesmo sem a presença do mestre que ora homenageia, não deixa nada a desejar às melhores rodas de samba dos tempos idos, com Zé da Zilda, Candeia, Elton Medeiros, Zé Kéti, Cartola, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho e por aí vai. Do Semente, logo estava no Carioca da Gema (onde se apresenta toda sexta-feira) e no Centro Cultural Carioca (toda quinta). Os sábados antes dedicados ao Semente agora vêm sendo dedicados aos shows, como a apresentação no Teatro Rival, no último final de semana (02 e 03 de maio).

No teatro, talvez ainda pela falta de costume, Teresa estava um pouco nervosa, de movimentos contidos e dança tímida, o que não chega a tirar o brilho e a força de sua voz, tampouco a excelência do Grupo Semente, que contou nesta apresentação com a presença de Pedro Paz (clarinete), Marcos Esguleba (cuíca, percussão) e Paulinho do Pandeiro. Com um belo e longo vestido branco, agradeceu e falou da empreitada de sucesso que seu primeiro trabalho vem conseguindo. O repertório baseou-se no disco, com muito Paulinho, incluindo Choro negro, Coração vulgar, Jurar com lágrimas, Guardei minha viola, Coração imprudente, Pecado capital, Coisas do mundo e Minha nega. Cantou também Zé da Zilda, Se eu pudesse, e Acalanto, música dela, que lembra as rimas, estrofes e histórias de Paulinho. Mas o melhor de Teresa está nos bares onde ela já se sente em casa, se solta e deixa o couro comer.

Lapa. Em entrevista ao MPBeleza (Rádio Viva Rio 1180 AM, terça a sexta, 14h), Teresa fala sobre a Lapa. “O que a iniciativa privada poderia fazer pela Lapa acho que já fez e está fazendo. Acho que falta hoje um pouco de interesse do governo, não sei em que âmbito (municipal, estadual, federal); alguém olhar para a Lapa. Ela é um cartão-postal assim como o Pão de Açúcar, o Corcovado. Tem a história do samba misturada ali: Geraldo Pereira, Ciro Monteiro cantava no Dancin’ Eldorado (onde hoje funciona o CCC), que tinha como dançarina a Elizeth Cardoso, Pixinguinha se apresentou lá… E aí você vê esses pequenos empresários reformando essas casas, só que eu acho que na Lapa falta dar uma olhada nas ruas, falta segurança. Não acho legal os arcos com infiltração, descascando. É um cartão postal da cidade. Acho que não custava preservar o que é nosso também. Quando comecei a cantar na Lapa, minha mãe ficou apavorada — um local de meretrício, travestis — e a gente convive com tudo isso, aliás conheço quase todas da Rua do Lavradio”.

Sobre a ausência temporária do Semente, Teresa diz: “A Rua Joaquim Silva tem ficado difícil, pois todo mundo quer fazer música na rua e aí não tem respeito. É uma pena, pois dos lugares em que eu toco, é o que considero como se fosse um filho meu. Eu comecei a cantar lá. Antes de eu pensar que poderia ser cantora, o Semente foi uma prova de fogo e a gente conquistou o local, o público começou a ser criado ali, o repertório também. Acho até legal, a rua se transformou, hoje em dia você entra num bar tem um concerto de harpa, noutro lugar tem forró, reggae, rock n’ roll, blues. Só acho complicado quando esses sons se misturam e rola uma maçaroca de som que você não sabe o que está ouvindo. O que vale a pena no Semente é o clima do local. A dona não tem nada de empresária. A Regina é uma amiga das pessoas, bebe junto, tem um astral espetacular. Os garçons são todos amigos, é um clima diferente, como se fosse uma família. E eu tenho saudades disso. Tinha noite que a gente ficava lá até quatro horas da manhã. Um dia a gente deu uma limpeza no Semente e o seu Jonas fez uma rabada, a gente comeu rabada às cinco horas da manhã. As canjas, com pessoas que às vezes eu não esperava que fossem aparecer, como Beth Carvalho, Marisa Monte, Cristina, Surica, Seu Argemiro, Seu Jair do Cavaquinho, Serginho, Guaraci da Velha Guarda da Portela, Moacir Luz, Cláudio Jorge, Zé Renato. Essas pessoas iam aparecendo e essas canjas nunca foram programadas”.

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Samba na mídia. Vascaína, como Paulinho e Paulo da Portela - “sem ele nós não estaríamos aqui hoje”, comenta - Teresa cursa Letras na Uerj, mas ultimamente não tem conseguido freqüentar as aulas direito. Mesma Uerj onde já produziu e apresentou um programa de rádio, mas que não deu muito certo, segundo ela. Mas não se queixa da falta de espaço na mídia. “Acho injusto até às vezes ir para um jornal e falar que não tem espaço, vir aqui na rádio, onde fui convidada, e dizer que não tem espaço. O samba não tem espaço onde nunca teve, que é aquele espaço feito pra vender. Nas trilhas sonoras de novela, por exemplo, só vai entrar um samba se tiver na novela um personagem suburbano, uma família mais alegre que põe cadeira na rua, que tem uma mulher escandalosa que fala alto e usa rolinho na cabeça. O samba só entra nesse caso. E falo de novela porque é um veículo que vende tudo: a roupa que os artistas estão usando, os lugares onde está sendo filmada… Tudo aquilo é vendável desde o primeiro dia que aparece na tela, o penteado, a gíria etc”.

O documentário sobre Paulinho da Viola, Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe, deve estrear em circuito ainda neste primeiro semestre. O filme foi exibido no festival É Tudo Verdade, em abril, e compete como melhor longa-metragem no CineCeará, agora em maio. Teresa participou de algumas gravações. “Tiveram duas locações em que eu participei, uma no quintal da Surica, com a Velha Guarda e o Paulinho, e lá em Xerém, na casa do Zeca [Pagodinho]. Tem uma cena do documentário, onde a gente estava começando a cantar ‘antigamente era Paulo da Portela…’ e de repente surge a criatura no portão. Ninguém sabia, ele chegou na hora da música dele. Parou tudo, ficou todo mundo olhando Paulinho chegar”. Teresa comenta também sobre a reclusão a que se submete o sambista, entretido com a marcenaria e os carros antigos, longe dos palcos: “A gente pede ‘não faça isso com a gente, Paulinho’, mas ele é muito preguiçoso. Estive nos shows de 60 anos dele, ano passado, maravilhosos.”

No segundo CD, já a caminho, Teresa pensa em algo mais autoral, músicas próprias e coerência com o que tem cantado, como Cartola, Wilson Moreira, Zé da Zilda. “Faço minhas músicas sozinha, melodia e letra, e tenho dificuldades em musicar a melodia dos outros”, afirma. Começa a perder o medo e, com uma melodia de Argemiro, deu origem à primeira parceria, A vida me fez assim: “Lá do alto a cachoeira / Vem descendo a ribanceira / um roncar que não tem fim / Curso d’água que me guia / Canto a dor e alegria / A vida me fez assim / Pode me faltar dinheiro / Que eu trabalho o ano inteiro / Pra poder recuperar / Mas nunca me falte flores / para agradecer amores / Que Oxum vive a me dar / Mas nunca me falte flores / para agradecer amores / Que Oxum vive a me dar / Lá do alto a cachoeira…”. Teresa é a continuação natural de um samba que se mostra mais e mais revigorado, samba que reverencia e bebe na fonte dos mestres do passado para fazer bonito e não dever nada a ninguém. Aos que duvidavam, o samba respira aliviado. Amém, Teresa.

Texto: Bruno Dorigatti
Fotos: Marcelo Ceará e Clarissa P. Moraes