Nação Zumbi Pesa Uma Tonelada

Ao contrário do que muita gente pensa, a Nação Zumbi não enfraqueceu seu som depois do desfalque de Chico Science, morto precocemente no ano de 1997. A banda está cada vez mais madura em relação à postura de palco e, musicalmente, mantém o nível de suavidade e peso que consagraram os meninos de Recife. No dia 25 de abril de 2003, sexta-feira, no Canecão, eles apresentaram um show que há muito tempo não faziam no Rio. O lugar encheu de pessoas interessadas em ouvir música boa e dançar ao som dos tambores da Nação.

Na abertura, o integrante do Planet Hemp, B Negão, que está para lançar um novo CD solo, tocou algumas de suas composições, dentre elas, “Prioridades”, música que faz parte da coletânea “Marcelo D2 apresenta Hip Hop Rio”. O show fez lembrar os bons momentos do funk. Não aquele que ficou popular no Brasil no final do século, mas aquele que reinava nos anos 70, quando, no Brasil, Banda Black Rio fazia as festas pela periferia da cidade, e, no mundo, George Clinton influenciava a garotada com o “psicodelic funk”.

O show de abertura terminou e deu lugar à expectativa. Para os fãs, o último disco da Nação Zumbi (Nação Zumbi, 2002, Trama) é um dos melhores de sua carreira, senão o melhor. Eles entraram no palco tocando uma música deste disco intitulada “Mormaço”, música de refrão pesado. Depois relembraram seu penúltimo disco “Rádio S.Amb.A” com as duas músicas mais populares, “Arrancando as tripas” e “Quando a maré encher”. A última, por sinal, levantou a galera, pois foi gravada pela cantora Cássia Eller em seu disco de maior sucesso de vendas, o “Acústico MTV”. Em seguida, emplacaram “Propaganda” e “Macô”, primeira do show que relembrava Chico Science.

A apresentação começa a esquentar no decorrer do show. Eles realmente entraram um pouco frios, mas quando tocaram “Blunt of Judah”, música que abre o último disco, já estavam com o público sob o controle da força dos tambores e dos timbres da guitarra.

Na maior parte do tempo, Jorge Du Peixe é o principal vocalista, mas o percussionista Gilmar Bola 8, o guitarrista Lúcio Maia e Toca Ogan, outro percussionista, também têm seus momentos na voz solo. A música que Toca Ogan cantou foi uma mistura psicodélica de maracatu com drum n’ bass. Perguntei a alguns espectadores sobre o que parecia ser os efeitos da guitarra de Lúcio Maia e eles responderam que os efeitos eram espaciais. Como se naves estivessem em cima do Canecão. Interessante…

“Rios, pontes e overdrives”, música do primeiro disco da banda (Da lama ao caos, 1992), foi tocada em forma de baião. Podia perceber-se que no meio da batida do tambor, havia pequenas quebradas no ritmo, que assemelhava-se à música eletrônica. A música ainda contou com a primeira participação especial da noite, Gustavo Black Alien, ex-integrante do Planet Hemp. Aí o “free style”, a arte da improvisação no rap, estava liberado para Gustavo mostrar suas habilidades.

Depois de “Banditismo por uma questão de classe” e “Um satélite na cabeça”, duas clássicas dos anos 90, entra a música “Amnesia express”, também do último disco, cantada em inglês e cheia de efeitos eletrônicos.

Pausa. Hora de entrar mais um convidado: Marcelo Yuka. Entra e faz discurso contra a injustiça social e os meios de comunicação. “Nem sempre o que toca nas rádios é o que merece ser ouvido”, diz Yuka. Concordamos.

Logo depois, o último sucesso radiofônico da banda, “Meu maracatu pesa uma tonelada”, levantou de novo o público presente. À essa hora o show já estava conquistado. Todos estavam no auge de sua felicidade musical acompanhando uma das melhores bandas de rock do Brasil.

A terceira participação especial era de um conterrâneo da Nação Zumbi: Otto. Ele cantou a música “Da lama ao caos”, que é um heavy metal misturado com embolada. É tão pesada, que cabe até uma incidental do Sepultura, “Refuse/Resist”. No meio dessa festa toda entra MarceloD2 de surpresa para continuar cantando a música. Na verdade ele entrou antes do combinado. D2 canta também “Manguetown”, com certeza o maior sucesso da banda. Todo mundo delirando e o show termina com ela. Claro que não. O bis se tornou uma instituição no Brasil e no mundo. Aposto com o pessoal em volta. No bis eles sempre tocam a “música de trabalho” de novo.

Tudo como manda o script, eles voltam e tocam “Maracatu de tiro certeiro”, música quase esquecida do primeiro disco. “Meu maracatu pesa uma tonelada” obviamente tocou de novo e firmou mais na cabeça daqueles que ainda não estavam entregues à Nação. Mas para fechar em grande estilo, tocaram outro clássico “Salustiano Song (Afrociberdelia)”, um baião guiado pela guitarra de Lúcio Maia, que também canta a música (cascos, caos, cascos, caos). Marcelo Yuka volta ao palco durante a música e toca em um sintetizador fazendo sons pirotécnicos (se é que pode se denominar um som como pirotécnico). As luzes se apagam, o ruído fica e mais um show da Nação Zumbi termina.

Texto: Marcelo Ceará
Fotos: Gabriel Versiani