Hermeto Pascoal, O Gênio Palpável

Um verdadeiro festival de dissonâncias musicais pôde ser apreciado pelo público presente na apresentação de Hermeto Pascoal, no último dia 24 de março, segunda-feira. O show em questão era o lançamento do último CD de Hermeto, intitulado Mundo Verde Esperança. O evento foi proporcionado pelo selo Rádio MEC e BR distribuidora e aconteceu no Rio Scenarium (Rua do Lavradio, 20), uma linda casa que, além de ser um bar, é um antiquário.

A casa estava cheia, nada muito difícil de se ver em uma apresentação de um gênio. Todos que estavam ali, pareciam nem cogitar não se divertir, era previsto por todos que a apresentação seria inesquecível.

Hermeto desce do elevador (a casa tem dois andares) e aparece para o público como uma pessoa normal, que apenas quer mostrar o seu último trabalho. Ao começar o show a gente vê que não é bem assim que a banda toca. O início parece até uma verdadeira quebradeira. A impressão que se tem é que todos os instrumentistas estão solando ao mesmo tempo. “A música é tão presente, os solos são tão variados, que parece que não coube espaço dentro do cérebro para a gente pensar” diz um dos presentes.

Depois de cerca de trinta minutos de música pesada, Hermeto vai para frente do palco e canta com uma chaleira, com água dentro. O improviso é bastante curioso, pois ele realmente executa maravilhosos solos com a tal chaleira d’água. Ele aproveita a pausa para agradecer os familiares, os amigos e os convidados.

Se o show é de Hermeto Pascoal, não tenha dúvidas, a banda dele é de um nível quase insuperável em técnica musical misturada com muita intuição. Na bateria, Márcio Bahia, um craque no instrumento, muito veloz e ao mesmo sutil nos movimentos. Na percussão, o filho de Hermeto, Fábio Pascoal. No saxofone, Vinícius Dorin, que executa solos rapidíssimos e nos dá a impressão de que tudo o que ele está tocando é muito fácil. No baixo, Itiberê Zwarg, que já tocava com Hermeto desde a lendária apresentação em Montreaux, no ano de 1979, que rendeu um dos melhores discos de sua carreira. No teclado, o mais jovem da banda, André Marques. Hermeto tem essas coisas de recrutar grandes músicos ainda jovens. Foi o caso do baixista Itiberê e do multi-instrumentista Carlos Malta, que anos atrás estavam tocando e aprendendo com o mestre.

O show ainda contou com a participação de alguns membros da Orquestra Família, liderada por Itiberê. A primeira foi sua filha, Joana Queiroz, que tocou clarinete e arrebentou, chegando a duelar com o saxofonista da banda, Vinícius Dorin. Depois subiu ao palco Aline Gonçalves para tocar flauta transversa e, para completar, a vocalista Beth Dau.

O clima não podia ser melhor. Na platéia, jovens e idosos dividiam a mesma alegria de contemplar a sonoridade do show. Houve um momento em que todos desceram do palco para tocar com cones de ferro. Era uma verdadeira orquestra de cones batendo no chão.

Depois dessa maravilha toda, os músicos voltaram ao palco para finalizar a apresentação e, novamente, quebraram tudo. Hermeto não poderia fechar de forma tão nobre. Apresentou seus companheiros, chamou Arismar do Espírito Santo para um pequeno e espetacular solo de teclado e, na última música, desceu do palco para passear com a banda pelo meio da galera. Um verdadeiro gênio. Um gênio que desce do palco. Um gênio palpável. Esse foi o show de Hermeto Pascoal.

Por Marcelo Ceará